Através de videoartes, leituras, e memórias à ‘céu aberto’, o MAPA se aproxima das comunidades para transformar os trilhos da Estrada de Ferro Carajás (EFC) em uma cartografia poética de histórias que se entrelaçam há 40 anos e preservam a Memória Ferroviária.
Apresentar leituras diversas da
história e das culturas do eixo Maranhão–Pará é a proposta da 1ª
edição do ‘MAPA – Mostra de Imagem em Movimento’, que cruza 27 comunidades
ao longo da Estrada de Ferro Carajás (EFC), a fim de resgatar a ‘memória
ferroviária’ como fio condutor das homenagens às narrativas regionais.
Projetando a memória individual e
coletiva das regiões ferroviárias através da ‘arte contemporânea’, o
MAPA se junta à 10 artistas que apresentam a riqueza simbólica
dos territórios da Estrada de Ferro Carajás (EFC), através de
seus novos trabalhos. São eles: Acaique, Dinho Araújo, Inke, Ramusyo Brasil
e Silvana Mendes, pelo Maranhão; e Bárbara Savannah, Ícaro Matos,
Juruna, Leonardo Venturieri e Rafa Cardozo, pelo Pará.
A mostra lança mão de vivências e
poéticas dentro de fotografias, pinturas digitais, colagens, videoartes,
leituras, e memórias à ‘céu aberto’, que serão projetadas
em superfícies urbanas históricas através do videomapping.
Os dez artistas aprofundam os pontos de vista com sensibilidade, tendo como
base suas trajetórias profissionais e pessoais, ampliando a percepção em torno
das comunidades que atravessam os trilhos da EFC.
Os processos criativos de cada
artista enriquecem as perspectivas e abordagens de cada localidade. No eixo
Maranhão, Acaique apresenta as memórias da infância, identidade e
experiência trans, na obra ‘Uma Casinha no Trilho’, a partir do trem
e das paisagens ferroviárias. Partindo de sua história pessoal, a obra utiliza
elementos dos contos de fadas para reimaginar e narrar uma trajetória de
autopercepção. “Eu produzi um vídeo que gostaria de ter visto quando era
criança. Todo processo de viagem foi uma forma de cura”, conta Acaique.
A memória da região também é um
terreno fértil para a criação de Dinho Araújo. O antropólogo, artista
e curador maranhense, lança a ‘História da Terra’, a partir da
criação de máscaras inspiradas em caretas, incluindo o bumba-meu-boi, para
refletir sobre os biomas e territórios que se conectam pela Estrada de Ferro
Carajás. Já Inke,
por outro lado, apresenta em ‘Frágil Dureza’ uma narrativa visual única
sobre as dores, anseios, alegrias e as múltiplas perspectivas das pessoas que
utilizam o trem, dando voz aos passageiros e às histórias que atravessam os
vagões.
As inquietações do artista, professor
e pesquisador em pós-doutorado no Maranhão, Ramusyo Brasil, também
permeiam a mostra MAPA, a partir do “Temp(l)o do Rosa Fixado”. A obra
arquiteta insights sobre a visão cinemática oferecida pelo trem, antes
mesmo da invenção do cinema. Ao mergulhar no trajeto da Estrada de Ferro
Carajás, Ramusyo considera o deslocamento de cores, odores e sabores como uma
mistura de fenômenos culturais que marcam a ancestralidade do percurso.
Traçando esse passado e presente
das comunidades ao redor da Estrada de Ferro Carajás (EFC), as narrativas se
ressignificam também a partir de ‘contranarrativas’, expostas pelo trabalho da artista
visual maranhense, Silvana Mendes. Em “Sol de Meio Dia”, a artista
propõe a ferrovia como um grande arquivo a ser poeticamente imaginado, através
da colagem digital e da sobreposição de imagens, memórias e
narrativas.
Juntos, esses artistas se reúnem a outros
cinco selecionados do Pará, a fim de transformar lembranças, relatos e
vivências em obras que dialoguem com o público. No eixo Pará, a artista
visual e pintora Bárbara Savannah apresenta “Um Horizonte em
Movimento”, ao investigar o deslocamento como experiência física e
afetiva. A obra parte das travessias pessoais entre rios, cidades e
trilhos para construir uma narrativa visual e sonora onde paisagem,
memória e percurso se sobrepõem.
Conhecendo outros percursos que
atravessam a EFC, o cineasta e fotógrafo documental Ícaro Matos
constrói a “Travessia” através do photomotion, interpretando a Estrada
de Ferro Carajás como um fio condutor de imagens entre o Maranhão (MA) e o Pará
(PA). Em sua obra, o trem é retratado como símbolo de circulação de afetos,
família, cerimônias, cultura e histórias.
Capturando um cotidiano caricato,
através dos 892 km de extensão da Estrada de Ferro Carajás, a
relação viva entre território, corpo e coletivo também atravessa o trabalho de Juruna,
artista afro-indígena, não binária e nômade que apresenta “Todo trajeto,
também é um rio”. Em sua obra inédita, Juruna transforma a ferrovia em
monumento por meio de corpos-territórios que atravessam suas paisagens – e por
elas são ressignificados.
Leonardo Venturieri traz a “Alvorada e Fuga” como
uma obra em vídeo que se assemelha a um espelho de seu inconsciente. O contato
do artista com a floresta amazônica e com a EFC lhe garantiu uma perspectiva
ímpar sobre a região, transparecendo através da música e do vídeo.
A memória surge novamente como eixo
de criação para a artista visual Rafa Cardozo, em “Tudo é correnteza”,
onde a fotógrafa constrói uma poesia visual em que memória, território e
identidade se movem como fluxo contínuo de símbolos familiares.
Homenageando esse traçado histórico, o MAPA nasce com o
propósito de visibilizar, valorizar e preservar toda a memória afetiva da Estrada
de Ferro Carajás, através do toque inovador da videoarte. O projeto,
que teve início em maio de 2025, apresenta expressões artísticas que pensam os
trilhos, transformando os trilhos em uma cartografia poética de histórias que
se entrelaçam há 40 anos.
Avançando agora para o ‘Festival MAPA’ nas cidades, o projeto
que ressignificou 892 quilômetros de memórias, histórias, passageiros e
estações comunitárias, através de pesquisas, mapeamentos, chamamento
de artistas, oficinas de criação e acompanhamento técnico das obras; chega para
ocupar a fachada de edifícios históricos com imagens em movimento.
Datado para 2026, a celebração pública e virtual das
obras se estenderá até culminar em Brasília, onde o acervo ganhará uma edição
especial, em formato de galeria. Captando todo o processo em imagens e
sons, a mostra chega como um organismo vivo de reflexão cultural, levando ao
coração do Brasil as histórias comunitárias do Norte-Nordeste.
Para mais informações e acesso às entrevistas, o MAPA disponibilizou
uma revista digital com o panorama geral das produções feitas no último
semestre. O periódico e os vídeos com trechos das entrevistas com os artistas
também estarão disponíveis através da bio do Instagram do MAPA (@mostramapa).
A Mostra de Imagem em Movimento – MAPA é uma
realização da OPACCA Produção de Imagem, com apoio da Vale, por
meio de Recursos para Preservação da Memória Ferroviária (RPMF), sob regulação
da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
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