Resenha: Vice-Versa reúne sete narrativas
independentes que se aproximam pelo modo como transformam situações
extraordinárias em instrumentos de observação da experiência humana. Cada conto
parte de um acontecimento improvável (um gesto extremo de amor, uma
apresentação teatral interrompida pela morte, um sonâmbulo dominado pelos
próprios pesadelos, uma aparição sobrenatural, uma carta esquecida durante
décadas, um retrato atravessado pela Revolução Francesa e a confissão de um antigo
carrasco) para deslocar o interesse da ação para as consequências morais e
emocionais que ela produz. O livro não busca construir um universo contínuo,
mas apresentar diferentes variações sobre o inesperado.
Essa
estrutura faz com que cada narrativa adote uma voz própria, embora todas
compartilhem um narrador que conduz os fatos com naturalidade, mesmo quando o
absurdo domina a cena. O efeito nasce justamente desse contraste:
acontecimentos que desafiam a lógica são relatados como episódios cotidianos. O
humor aparece em diversos momentos, mas quase sempre funciona como contraponto
à tragédia, criando uma tensão constante entre o cômico e o dramático, sem
permitir que um anule o outro.
Ao longo da coletânea, percebe-se
também um diálogo frequente com a literatura, o teatro e a história.
Referências como A Dama das Camélias, Érico Veríssimo, a Revolução Francesa e a
discussão sobre a pena de morte não surgem apenas como citações culturais, mas
participam da construção dos conflitos. Em vez de servirem como ornamentação,
ampliam o alcance das histórias, aproximando a ficção de questões relacionadas
à memória, à justiça, ao remorso e às escolhas individuais.
Embora cada conto preserve sua
autonomia, há uma mudança perceptível na maneira como os conflitos são
conduzidos. Os textos iniciais se apoiam mais na surpresa provocada pela
situação extraordinária, enquanto os últimos dedicam maior espaço às
implicações éticas dos acontecimentos. Vice-Versa, que encerra o volume,
exemplifica esse movimento ao deslocar o foco da revelação para o peso da
consciência e para a possibilidade — ou não — de redenção. Não se trata apenas
de apresentar um desfecho impactante, mas de fazer com que a narrativa
permaneça em torno das responsabilidades que sobrevivem aos fatos.
O conjunto revela um autor interessado
em experimentar diferentes formas de contar histórias sem abandonar uma
identidade reconhecível. Os elementos fantásticos, históricos e psicológicos
convivem de maneira equilibrada porque todos respondem ao mesmo propósito:
colocar personagens diante de acontecimentos capazes de modificar a forma como
compreendem a si mesmos. Ao final da leitura, o que une esses contos não é um
tema único, mas a insistência em mostrar que os episódios mais extraordinários
acabam revelando dilemas profundamente humanos. [Cláudia Brino]
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Capa: brochura
Páginas: 52
Estilo: contos
Autor(a): Cláudio Feldman
Editora: Costelas
Felinas
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